Acromegalia

A acromegalia é uma doença endócrina resultante da produção excessiva de hormona de crescimento (GH), na grande maioria dos casos (90%), devida a um adenoma (tumor benigno) da hipófise. Muito raramente a doença pode ser devida à produção de GH ou GHRH (hormona hipotalâmica estimuladora da secreção da GH) por tumores do pâncreas, pulmões e supra-renais. Afecta habitualmente adultos de meia idade, de ambos os sexos, com maior incidência no sexo feminino, tem uma instalação lenta e progressiva, constituindo uma doença grave que se acompanha de aumento da mortalidade. A acromegalia é uma doença que aparece em 3 novos indivíduos, em cada milhão de habitantes e por ano. Existem 40 a 60 casos de acromegalia por milhão de habitantes.

Manifestações clínicas
Os principais sintomas são o aumento das partes moles das mãos e pés, o que dá origem à necessidade de alargar o diâmetro dos anéis e o tamanho dos sapatos. Progressivamente as alterações ósseas e das cartilagens modificam os traços faciais do doente com protusão do maxilar inferior (prognatismo), espessamento dos ossos dos seios frontais, alargamento do nariz e aumento dos espaços interdentários.

Outros sintomas incluem : alterações degenerativas articulares, síndrome do canal cárpico, pele espessa e oleosa, manchas de pigmentação da pele, aumento do volume dos lábios, do nariz e da língua, voz mais “grossa” por espessamento das cordas vocais, ressonar (roncopatia) por obstrução das vias aéreas superiores, fadiga, cefaleias, alterações dos ciclos menstruais na mulher e redução da líbido e da potência sexual no homem. Quando estes tumores são de maiores dimensões, podem comprimir as estruturas adjacentes tal como os nervos ópticos, provocando cefaleias e alterações da visão.

As doenças mais graves que acompanham a acromegalia são a diabetes mellitus, a hipertensão arterial assim como um risco aumentado de outras doenças cardiovasculares. Está também aumentada a possibilidade do aparecimento de polipos do cólon que podem evoluir para cancro. Quando os adenomas GH aparecem na infância, antes do completo crescimento dos ossos longos, a doença promove uma aceleração do crescimento dando origem a um gigantismo.

A acromegalia é provocada pela hipersecreção prolongada de GH pela glândula hipofisária. A secreção desta hormona é controlada pelo hipotálamo, através de uma hormona estimuladora da libertação da GH e pela somatostatina que pelo contrário, inibe a sua libertação. A secreção da GH origina a produção pelo fígado de outra hormona chamada IGF1 (Insuline-like growth factor1). Esta hormona é a responsável pelo crescimento dos ossos e outros órgãos do corpo.

A maior parte dos adenomas hipofisários aparecem espontâneamente não sendo geneticamente transmissíveis. Muitos tumores provêm de uma alteração genética de uma única célula hipofisária que determina um aumento da multiplicação celular e formação tumoral. Esta mutação genética não está presente quando do nascimento, sendo adquirida durante a vida.

Diagnóstico
O diagnóstico da doença é suspeitado pela clínica que referimos anteriormente. Para a confirmação devem fazer-se vários doseamentos de GH em jejum visto que a sua secreção é pulsátil. A prova de sobrecarga oral com a ingestão de 75 gramas de glucose pode excluir o diagnóstico, se se obtiverem valores de secreção de GH inferiores a 2 ng/mL. Em doentes com hipersecreção de GH esta supressão não ocorre. Este teste é o método mais fiável para a confirmação do diagnóstico de acromegalia. O doseamento da IGF1 é muito útil para o diagnóstico. Depois da confirmação laboratorial da doença, a tomografia axial computorizada (TAC) ou a ressonância magnética (RM) da hipófise confirma habitualmente a existência de um adenoma.

Tratamento
Os objectivos do tratamento são a normalização dos níveis de GH, a eventual redução da compressão do tumor sobre as estruturas vizinhas e a preservação da normal função hipofisária. O êxito do tratamento traduz-se pelo desaparecimento dos sintomas da acromegalia. As alternativas terapêuticas disponíveis incluem a remoção cirúrgica do tumor, a terapêutica médica e a radioterapia do adenoma.

Cirurgia
A cirurgia é um tratamento rápido e eficaz. Através de cirurgia transesfenoidal o cirurgião remove o adenoma normalizando os níveis de GH. A cirurgia tem maior sucesso nos pequenos adenomas (<10mm) ou naqueles com níveis de GH inferiores a 40 ng/mL.

Tratamento médico
Os fármacos mais largamente utilizados no tratamento da acromegalia são os análogos de longa acção da somatostatina, o octreótido e o lanreótido. Podem ser utilizados como primeira terapêutica, antes da cirurgia ou como terapêutica complementar nos casos de insucesso da cirurgia. Estes fármacos são habitualmente administrados por via intramuscular em intervalos de 28 ou 40 dias. Como promovem a inibição da função gastrointestinal e pancreática como acompanhar-se de efeitos acessórios como esteatorreia, náuseas, meteorismo e litíase da vesícula. Os agonistas dopaminérgicos como a bromocriptina e mais recentemente a cabergolina, podem ser utilizados como complemento de outras terapêuticas.

O pegvisomant é um antagonista dos receptores da hormona de crescimento, aprovado na Europa e nos Estados Unidos, para o tratamento de casos de acromegalia que não respondem a outras formas de terapêutica. É administrado em injecção subcutânea diária de 10 mg e a IGF1 deve ser doseada cada 4 a 6 semanas podendo a dose ser aumentada até um máximo de 30 mg por dia.

Radioterapia
A radioterapia é habitualmente utilizada como terapêutica complementar nos casos de insucesso da terapêutica cirúrgica ou da terapêutica médica. Pode ser administrada em doses fraccionadas ao longo de 4 a 6 semanas. Reduz os níveis de GH em 50% ao fim de 2 a 5 anos.