Newsletter da SPEDM

A Endocrinologia e Eu - João Filipe Raposo

A Endocrinologia e Eu
Ed.
Janeiro 2024

Mesmo agradecendo o convite da equipa editorial da newsletter e da Direção da SPEDM, este é certamente um dos tópicos mais difíceis de escrever. Os leitores desta secção terão algum (muito) interesse em Endocrinologia e menos (muito menos, espero) interesse em mim.

Se este é um momento de balanço de carreira profissional, posso resumir a minha a um percurso que a mim me pareceu muito natural. A escolha da medicina estava definida desde muito cedo (e não havia pessoas próximas nesta área) e assim foi! O percurso na Faculdade de Medicina de Lisboa decorreu sem sobressaltos - entre amores, ódios e indiferença para as “cadeiras” e os outros amores e desamores também.

Mas foi durante o curso e muito cedo que foi dada a aproximação à Endocrinologia e mais especialmente à diabetes quando entrei para a equipa de investigação do laboratório de Química Fisiológica. Este laboratório tinha uma linha de investigação em diabetes e aí, com um grupo de colegas e amigos, passei muitas horas semanais a investigar mecanismos de complicações em diabetes – glicação de proteínas e stress oxidativo (coisas dos anos 80’s!). A discussão de projetos de investigação, a publicação dos primeiros artigos em revistas nacionais e internacionais numa fase tão precoce num curso pode mudar certamente a nossa perspetiva de futuro. Será que não conseguimos mudar as nossas escolas de Medicina para replicarem mais este modelo?

No final do curso e depois do Internato Geral no Hospital de Santa Maria, várias especialidades médicas e cirúrgicas me pareciam possíveis e desejáveis. A Endocrinologia estava em primeiro lugar, provavelmente fruto da experiência em investigação e porque me parecia que fazia uma ligação muito lógica e próxima entre esta e a clínica. O Instituto Português de Oncologia (IPO) em Lisboa foi também a opção natural (um dos colegas de Laboratório da Faculdade estava a fazer a especialidade lá e as referências eram excelentes relativamente à equipa). E assim foi!

No IPO foi possível verificar um outro modelo de funcionamento hospitalar – o trabalho em equipa era possível e desejável. A colaboração interdisciplinar entre todas as áreas clínicas e as áreas de investigação era promovido. A discussão do nosso trabalho era permanente e os casos clínicos eram sobre as “pessoas” que tinham doenças e não sobre “doenças”. Na verdade em medicina, todos nós, acompanhamos as pessoas em todas as suas dimensões (esta é a melhor parte de ser médico).

Mantive a minha colaboração com a Faculdade (entre aulas e investigação em diabetes) até ao momento em que por ir fazer um estágio de investigação laboratorial em Endocrinologia nos EUA em mecanismos moleculares em tumores hipofisários, a Faculdade considerar que tal não era interessante ou compatível com estas funções. Naturalmente deixei a Faculdade.

O meu tempo de internato na especialidade foi feito em dedicação exclusiva (era obrigatório) e esse tempo e dedicação criaram ligações fortes com o “meu” serviço. Não seria esse um bom modelo para retomar?

Com a conclusão da especialidade, a dedicação exclusiva acabou (o ordenado reduzia) e a procura de alternativas começava. Foi aqui, que naturalmente, começou o meu trabalho na Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP). Um novo mundo abriu-se. O conhecimento de um novo modelo (na associação de “diabéticos” mais antiga do mundo) de prestação de cuidados integrados, ligados ao ensino pré e pós-graduado, à investigação, à atividade associativa e intervenção comunitária foi um desafio apaixonante. Aceitarem um recém especialista na tomada de decisões internas, na organização das reuniões, congressos e seminários foi também entusiasmante. Foi também aqui a entrada para o Diabetes Education Study Group e o início de uma colaboração internacional.

Esse período correspondeu também ao período do doutoramento e uma nova área de desenvolvimento:  modelos matemáticos da homeostase do cálcio que foi apresentada na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa. Descrever processos, analisar resultados e simplificar – algo que se pode aplicar a tantas áreas da nossa vida.

Esse é também o período de transição para a área da Saúde Pública e das Doenças Crónicas Não Transmissíveis – e estudar a diabetes como uma “tracer disease” para os sistemas de saúde – e a minha entrada para a Nova Medical School como Professor.

A minha carreira passou pelo desafio da Direção Clínica da APDP (que ainda mantenho e representa ainda uma paixão).

Foi também natural a passagem pela Direção da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) de que sou atualmente o Presidente e que retrata tão bem o que defendo – os modelos em saúde têm de ser colaborativos e não competitivos. Representando a APDP e a SPD, pertenço neste momento ao Board da IDF-Europa (Federação Internacional da Diabetes) e é bom verificar como Portugal é mostrado como bom exemplo de práticas em Diabetes.

Falta ainda referir um outro passo neste percurso e que também naturalmente aconteceu. Tenho nos últimos anos colaborado com diferentes grupos da Organização Mundial de Saúde apoiando muitos países a avaliar, desenvolver e inovar os processos de cuidados em diabetes. Não tenho palavras para descrever como é recompensador esta atividade - verificar que há países que procuram, decidem e fazem melhor em diabetes e que esse resultado é conseguido com um bocadinho de nós!

Neste texto, usei a palavra “natural” várias vezes – nada é na verdade natural e resulta sempre de trabalho e reconhecimento. Neste texto também não citei nenhuma pessoa – mas na verdade este percurso só foi e é possível porque trabalhei e trabalho com muitas pessoas que apoiaram este percurso e que colaboraram neste meu desenvolvimento pessoal e profissional (incluindo a minha família – é verdade, também existe!).

Se posso terminar com um conselho para todos – descubram o que gostam, o que vos apaixona. É isso que nos faz mover e tentar ser melhor! O resto é “natural” !