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EndocrinArte - Joana Guimarães

EndocrinArte
Ed.
Janeiro 2024

A arte de ir além da Medicina é um privilégio

Em 1983 abria uma escola de bailado em Aveiro, a EBA. Os meus Pais inscreveram-me por considerarem benéfico na coordenação motora, equilíbrio e postura.

A professora, a Joca, que na altura tinha vinte e poucos anos só podia ser uma grande Mulher, tão nova e empreendedora e a “exigir” a miúdas tão pequenas, esforço, pontualidade, dedicação e uma postura irrepreensível. Foi crucial para mim, marcou várias gerações e deixou muitas saudades.

No primeiro espetáculo, os adereços eram pobres e as proezas técnicas faziam as delícias dos Pais, a nós próprias e à Professora, que apesar de corrigir sempre alguma coisa, não disfarça(va) o orgulho.

Com o tempo, passámos de 2, 3 para 4 aulas por semana, ensaios aos fins de semana, vieram os sapatos em ponta, mais técnica, postura, dificuldade, magia e também as bolhas, a dor, “elas”…. E a paixão! Aquele foi o meu lugar, um amor, a liberdade e a 2.a casa. Ter tudo isto na infância/adolescência é importante, mas quando se “olha para trás”, é mágico e único.

Existiam todos os anos dois momentos memoráveis. Recordo as insónias, as “borboletas” e a expectativa para cada exame à Imperial Society e em cada entrada no palco. Eram os grandes dias para a escola e para nós, especialmente o palco! Com ele, a cortina, as luzes, o “silêncio” e o público. Nunca irei conseguir transmitir o que se sente naqueles bastidores e backstage, o respeito, a disciplina, a ambição de fazer melhor, a desilusão em cada falha, as lágrimas e as gargalhadas, a persistência e resiliência. Eu e elas percebemos. Foi até 1993 e entrar na universidade.

Em 2013, no 30º aniversário da EBA, 20 anos depois de ter saído, há um espetáculo para o qual somos convidadas. O “Lago dos cisnes”! Tinha nome, um clássico, vestidos pomposos, coreografias dignas de grandes escolas, mas as borboletas, a ansiedade, a alegria e a emoção eram mais intensas. Foi inevitável regressar àquele frenesim, voltámos no ano seguinte e no outro, com a “Bela e o Monstro”.

Depois tudo voltou à normalidade da vida aos 40. Era difícil aceitar que o corpo já não fazia o mesmo e as pontas só de recordação.

Em 2023, há o 40º aniversário. Somos convidadas para voltar ao palco, para o clássico “Quebra Nozes”. Todas envelhecemos naturalmente, mas mais uma vez, a alma não, nem perdeu o brilho e o sorriso iluminou cada pirueta ou chassé.

Várias vezes me perguntaram porquê? Abdicar de outras atividades, sempre disponível para ensaios e as mesmas borboletas a perturbarem o “descanso”. A verdade é que que em cima daquele palco não sou a mesma. Sou a Joana Costa do ballet, da EBA, que sente uma felicidade genuína, que vibra com cada aplauso, lacrimeja em cada vénia, e continua apaixonada pela arte e por “elas”.

 

Quebra Nozes, 2023