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EndocrinArte - Mariana Martinho

EndocrinArte
Ed.
Abril 2024

Acromegalia: ultrapassando o quadro (clínico)

A imagética dos significados associados à palavra visão inunda a nossa língua. 'Ver’ é apreender; ‘observar’ é examinar; ‘olhar’ é manifestação de interesse; ‘fitar’ é projeção de desejo. A subjetividade está sempre presente, sobretudo quando olhamos o outro ou somos observados. A arte da fotografia amplia esta realidade e adiciona infinitas camadas de significado.

A fotógrafa norte-americana Diane Arbus (Nova Iorque, 1923-1971) destacava-se pelo gosto em capturar imagens de temas insólitos, focando-se tanto no indivíduo mais banal como em indivíduos marginalizados, na sua rotina diária, num estilo fotográfico a preto e branco muito singular. A sua obra teve tanto de celebrado pelo seu cariz empático como de criticado por suposta exploração voyeurista. 

Uma das suas fotografias mais icónicas 'A Jewish giant at home with his parents in the Bronx -1970), revela-nos Eddie Carmel, um ‘gigante acromegálico’ com 2,34 m. Nesta, uma cena familiar e à primeira vista comum, ganha um tom teatral. O filho curva-se perante os pais  num antagonismo que vai além das suas alturas: a postura mais formal dos últimos no seu lar contrasta com a camisa em desalinho e o desconforto do primeiro, parecendo não se encaixar na cena. Eddie trabalhava como artista circense e entertainer, o que era desaprovado pelos seus pais. Este sentimento ecoa no observador, criando empatia.

Numa perspetiva endócrina sabe-se que Carmel fora previamente submetido a cirurgia hipofisária incompleta bem como a dois ciclos de radioterapia, vindo a falecer dois anos depois da foto. A autópsia revelou um macroadenoma pituitário acidófilo residual e um meningioma perisselar, provavelmente secundário à radioterapia, ilustrando as dificuldades e limitações inerentes ao tratamento da acromegalia no passado.

 

A Jewish giant at home with his parents in the Bronx, 1970