Fazer Medicina antes do 25 de abril de 1974
Na altura em que me licenciei, só começávamos a fazer Medicina não tutelada após um ano de estágio e a entrega e defesa da tese de licenciatura. Iniciávamos então o Internato e podíamos exercer Medicina em regime livre, o que passei a fazer no ano de 1964 com 23 anos. Para compor o ordenado comecei a fazer serviços nas chamadas “Caixas” ou seja Caixas de Previdência de modelo bismarquiano, que só abrangiam os trabalhadores que descontavam directamente no ordenado.
Fiz consultas nos postos da “Caixa” em Lisboa no posto das Mónicas e em Alhos Vedros. Fiz domicílios na zona oriental de Lisboa. A realidade dos domicílios, colocou-me perante a miséria da população. Era uma zona ainda ligada à indústria de Lisboa Oriental e dos trabalhadores do porto de Lisboa. Habitações sem esgotos e água canalizada, cheiro a pobreza. Alguma surpresa dos habitantes por serem auscultados e ser medida a tensão arterial… E, no final, a grande interrogação, tal como nos postos: como poderiam comprar os medicamentos. Era a altura em que juntávamos amostras da propaganda médica, para podermos dar aos doentes. Mas não chegava. Era uma época em que já havia antibióticos, que tinham surgido cerca de dez anos antes. Mas a licenciatura ainda era com o peso de uma Farmacologia à base de manipulados e o meio ano de disciplina de Terapêutica mal nos dava para aprender alguma coisa daquilo que já devia ser a clínica moderna e corrente: antibióticos e insulina.
No chamado “posto da Caixa”, as consultas tinham que ser rápidas, porque a lista de atendimentos era grande. Nós vínhamos com toda a assimilação e convencimento para executar um bom processo clínico, que esse sim tinha-nos sido ensinado com rigor. E assim tentávamos fazer, indo muito para além do tempo que nos estava destinado. Um dia, o director da “Caixa” de Alhos Vedros, disse-me, gentilmente: “Doutora, veja lá o tempo da consulta. As enfermeiras queixam-se que a doutora vê a tensão arterial e tudo…”
Fazia também turnos de urgência no Hospital do Barreiro, dirigido pelo provedor, um senhor alentejano, de capote, bastante rural. Quanto às enfermeiras eram freiras. Qualquer de nós, que fazia urgência, ficava sozinho no turno. Era o único hospital, que cobria toda a população do Barreiro. Não é preciso explicar o stress duma jovem médica perante a diversidade de situações que apareciam. E assim apliquei os meus conhecimentos em pequena cirurgia, que aprendera na frequência dos “Bancos” do Hospital de São José, onde ia como voluntária.
Quanto a radiações, apanhei muitas, pois usava a radioscopia sem protecção, pelo menos até tomar consciência forte disso, quando a pobre técnica, sempre sem protecção durante a gravidez, deu à luz um bebé de ossos moles, que morreu pouco depois de nascer. A urgência do Hospital de Santa Maria tinha então muito menos frequência do que a dos Hospitais Civis de Lisboa. Quanto às mulheres com aborto espontâneo ou provocado em curso, eram encaminhadas para a Enfermaria de Santa Bárbara (nos anos 60 foram 1500 entradas em 9 meses). As mulheres com aborto provocado em curso eram admoestadas pelo seu mau comportamento. Às mulheres com crises de histeria eram aplicados choques eléctricos, após os profissionais lhes dizerem: “ Vê lá se queres que vá buscar a caixinha”.
Mal me formei, integrei os corpos gerentes da Ordem dos Médicos e por isso fui presa, mais uma vez, em Novembro de 1972. A Ordem foi fechada, selada e dirigida por uma Comissão Administrativa até Abril de 1974. Este era o país. Antes disso já o Professor Miller Guerra encabeçara o Relatório das Carreiras Médicas que antecipou a criação do Serviço Nacional de Saúde. E ensinava-nos rigorosamente a Deontologia Médica, explicando também que perante a realidade e os novos recursos, a Saúde já não podia depender apenas da solidariedade e que era necessário um serviço de Saúde organizado para o país.