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Histórias e Estórias - Jorge Dores

Histórias e estórias
Ed.
Outubro 2025

Terminologia médica 

Confesso que manifesto algum desconforto com a terminologia empregue por profissionais de outras áreas fora da medicina, quando interajo com eles no âmbito da minha vida profissional ou pessoal. As que vivencio com maior regularidade são com o contabilista e os seus balancetes, os ativos tangíveis, o EBITDA, entre outros, ou o mecânico com os problemas do alternador ou a junta da colaça, que geralmente culminam com um rombo no meu balanço patrimonial a favor da oficina e frequentemente do Estado.  

Como geralmente não tento imiscuir-me nessa linguagem hermética dos outros profissionais, creio que não terei contribuído para alguma expressão merecedora de registo para um naco de prosa que partilho convosco e que seguramente todos terão algumas pérolas ao longo da vossa carreira médica. 

Tudo começou, ainda quando era estudante de medicina, quando, estendido na toalha após um mergulho na praia de Matosinhos, apreciava a conversa de dois adolescentes a falar de futebol. Um deles manifestava a sua preocupação pela indisponibilidade de um craque para o próximo jogo do seu clube, porque tinha uma lesão nos gémeos. Perante esta adversidade um deles pergunta ao outro o que é que seriam os gémeos, ao que de imediato este responde “sei lá, se calhar são os tomates”. Esta resposta carregada de ignorância ingénua, amparada por alguma lógica de raciocínio, foi o mote para rever as histórias engraçadas que me lembro, recordadas através da recuperação de SMS trocados com a minha colega e amiga Cláudia Freitas quando nos confrontávamos com expressões hilariantes dos doentes. 

Uma das que me lembro mais antigas foi a informação espontânea de uma doente que tinha feito um exame ao estômago e lhe tinham tirado “dois hipólitos” (pólipos). Outro que ia ser operado a uma hérnia inguinal e lhe disseram que ia fazer uma pandural (epidural), mas como a coisa não pegou disseram-lhe “temos de ir pra reca” (raquianestesia). 

Já como endocrinologista, na tentativa de saber o tempo de evolução da diabetes, fui informado que “apanhei os diabetes quando tive a morte súbita” ou perante a pergunta se teve desde a última consulta alguma hipoglicemia, a doente afirmou com uma expressão de grande preocupação que sim, até a levaram para o hospital às portas da morte, “chamavam-lhe o cona” (coma).  

Do nome dos medicamentos, para além do clássico Ernesto (Entresto®), os medicamentos genéricos vieram a acentuar maior dificuldade em mencionar adequadamente os seus nomes, sendo o pichabano (apixabano) o meu preferido. 

O aparecimento dos inibidores da SGLT-2 veio enriquecer estas histórias com um telefonema do primeiro doente a quem coloquei a dapagliflozina, professor de música, referindo-me que não ia tomar mais o medicamento que lhe prescrevi porque tinha a gaita que até metia dó. 

Outra doente que mal se sentou na consulta me informou que o último medicamento que lhe tinha receitado tinha-lhe feito muito bem, mas mexia-lhe com a vagina (não, não foi o pichabano). No fim da consulta, enviei SMS à Cláudia Freitas com esta informação e dizendo qual foi o medicamento (Synjardy®). Tive resposta pouco tempo depois com o seguinte conselho: para a próxima receita-lhe Janumet®. 

E mais não conto…