O nascimento de uma consulta
Em 1983 estava eu no alvor do meu internato da especialidade, o acaso levou-me a integrar o corpo clínico de Instituto Português de Oncologia.
Era uma realidade estranha, diferente da que tinha conhecido nos hospitais gerais; sim, porque na época a abertura do concurso para entrada na especialidade demorou seis anos e, por isso, tive um longo estágio acrescido aos dois anos de polivalência, obrigatórios. Nos demais locais, as pessoas adoeciam, eram internadas e saíam para suas casas quase, e sempre, curadas. Ali, não era essa a pedra de toque: entravam, ficavam internadas e…na maioria das vezes não regressavam ao domicílio. Ali ficavam meses a fio e…para não voltar. Na época ainda se estava num tempo em que ao diagnóstico se agregava a palavra “morte”.
Os anos passaram e ao invés do retrato anterior – os doentes não “desapareciam” tanto – eles ficavam, muitos com critérios clínicos e analíticos de cura, mas, com pouca vivacidade, pouca energia – sobretudo os adolescentes e adultos, já que às crianças lhes bastava não ter febre para saltitarem e traquinarem. Não havia dúvidas eles estavam curados! No entanto as inúmeras terapêuticas tinham-nos…tornado mais velhos. A debilidade, a anergia, a fusão de massa muscular, a pele macilenta, o deambular resignado lembrava uma legião de velhinhos que alí andavam sem alma, sem alegria, frágeis e sem objetivos. Eram “robots” doentes e velhos mas…curados. Estranho!!! Afinal não havia evidência de doença? Seria verdade?
Esta estranheza acompanhou-me até um dia em que fui procurada por uma mãe que me dizia: o meu filho (criança com cerca de 9 anos) desde que terminou os tratamentos, não cresce. Assim era; acompanhado durante vários meses, a criança, curada, não crescia. Foi este o “trigger” que me despertou para as várias lesões endócrinas que posteriormente foram detetadas e identificadas nos mais diversos casos, secundárias à doença e respetivos tratamentos. Começaram a ser tratadas e; as crianças floresceram e os adultos voltaram a aparentar ter a idade real.
Foi esta a Estória do Nascimento da Consulta de Endocrinologia de Reabilitação dos Doentes Oncológicos.