Como foi estar na faculdade no 25 de Abril
É gratificante re(vi)ver o meu tempo de faculdade dado o período em que ele decorreu: 1970-1976: no antes, no durante e no pós 25 de Abril. Proveniente de uma família tradicional de Braga, cidade marcada pelo conservadorismo e peso da Igreja, eu não estava muito desperta para as questões políticas. Mas o facto de ter irmãos já mobilizados para a guerra colonial - a guerra do Ultramar, como se designava - e ter tantos amigos nas mesmas circunstâncias, tornava o tema da guerra muito presente. Chegada ao Porto encontrei um clima efervescente neste aspeto. Havia uma tensão latente. Notava-se a presença de carros de polícia no hospital (os “níveas”). No bar da faculdade, lugar de encontro desde que a Associação de Estudantes foi encerrada, fazia-se a concentração de estudantes, um subindo para uma mesa e tomava a palavra para denunciar alguma ação de detenção ou expulsão de alunos (muitos anos depois seria meu marido!) ou outras situações repressivas. Eram intervenções rápidas porque havia informadores - vigilantes - nas faculdades. Lembro -me de uma vez haver necessidade de fugir para as alas clínicas (onde a polícia não entrava).
Era a contestação à mobilização de centenas de jovens para a frente de combate que unia toda a academia e, através desta contestação, crescia a consciencialização da repressão do regime. Foi, portanto, com grande alegria, esperança mas também muita ansiedade, que recebi a notícia da Revolução do 25 de Abril. Estava numa aula teórica de propedêutica cirúrgica, no 4ºano, Prof Joaquim Bastos. Recordo até a matéria que estava a ser tratada - disquinésia biliar. Eram 10:40h e os apontamentos, no caderno A4 de capa preta, ficaram suspensos nesse momento!
Seguiu-se um período frenético, absolutamente único, em que tudo acontecia de modo muito rápido, com manifestações de rua, notícias, reuniões e plenários de academia, formação de comissões pedagógicas. Neste clima “voaram” os dois anos até concluir o curso. Houve lugar a muitas discussões e consensos relativos à estruturação das carreiras médicas. Foi inovador descentralizar a formação médica nos Internatos Geral e Complementar para fora dos hospitais centrais. Foi criado o Serviço Médico à Periferia (SMP) que levou pela primeira vez cuidados médicos à população de forma transversal e continuada, criando os alicerces do Serviço Nacional de Saúde e percursor da carreira de Medicina Geral e Familiar.
Fiz o Internato Geral em Braga, onde não havia tradição de internos e estes eram tidos, em alguns setores, como “intrusos “que complicavam as rotinas estabelecidas. Fiz o SMP em Terras do Bouro e urgência semanal em Vila Verde, porque Terras do Bouro não tinha hospital. Estas etapas foram muito importantes e deixaram muitas recordações, boas e menos boas, mas as estórias destas vivências ficam para outras conversas.