Se durante algum tempo o campo da dislipidemia poderá ter parecido algo estático, sobretudo no que diz respeito ao arsenal terapêutico, assentando durante décadas nas estatinas como pilar fundamental (e quase ancestral), os tempos que correm evocam o paradigma de Heráclito, maravilhosamente cantado por Camões: A única constante é a mudança!
De facto, o campo da dislipidemia tem fervilhado de descobertas entusiasmantes, que não podem deixar de ser assinaladas, também pela equipa editorial desta Newsletter. Ainda por estes dias se publicaram as orientações sobre dislipidemia da ACC/AHA, que ilustram a preocupação da sociedade científica em acompanhar as mudanças.
Tem-se refinado a estratificação de risco cardiovascular através da incorporação mais consolidada de marcadores de risco já conhecidos como a Lp(a), Apo B e score de cálcio coronário, sobre os quais a evidência se tem acumulado. A estratégia para uma avaliação de risco cardiovascular precisa passará cada vez mais pela identificação de fases iniciais de doença vascular aterosclerótica, antes da ocorrência de eventos cardiovasculares major. E outros marcadores de risco cardiovascular menos óbvios devem ser tidos em conta.
Do campo da biologia molecular têm surgido importantes contributos para a compreensão do metabolismo lipídico. Nos últimos anos, estas descobertas permitiram a inovação terapêutica, focando-se em alvos terapêuticos alternativos, que prometem revolucionar o tratamento da dislipidemia. Agentes como pequenos RNA interferentes da PCSK9, inibidores da Diacylglycerol Acyltransferase (DGATis) e da adenosine triphosphate-citrate lyase (ACLi), moduladores selectivos do peroxisome proliferator-activated receptor alpha (PPARα), inibidores da cholesteryl ester transfer protein (CETPi), oligonucleotidos antisense (ASO) da APOCIII, e inibidores da angiopoietin-like protein 3 (ANGPTL3i) estão no centro destas inovações.
Certamente que os endocrinologistas estarão também na linha da frente desta (r)evolução terapêutica.
Para dissecar o refinamento na avaliação do risco cardiovascular e sobre a inovação farmacológica no arsenal terapêutico das dislipidemias, pedimos a colaboração de elementos do Grupo de Estudos da Dislipidemia que partilharam as suas visões de peritos.
Perante tanta inovação, que lugar estará reservado às Estatinas? - Uma boa pergunta para um prós e contras.
A propósito da evolução no campo da dislipidemia, pedimos a um “lipidologista enciclopédico”, o Dr. Sequeira Duarte, que nos brindasse com um capítulo interessante dessa História da dislipidemia.
Mas, nem só de pão vive o homem, nem todo o colesterol é maligno e nem tudo é mau entre o que é gordo ou doce. A propósito, serão as ervas mesmo daninhas? Respostas surpreendentes podem ser encontradas no EndOut desta edição.