Vivemos uma era de transformação sem precedentes no campo da Endocrinologia, especialmente no que diz respeito ao tratamento da obesidade. O reconhecimento crescente da obesidade como uma doença crónica, multifatorial e recidivante tem impulsionado avanços notáveis no diagnóstico, terapêutica e abordagem multidisciplinar.
A redefinição dos critérios diagnósticos, a valorização de indicadores como o rácio cintura-estatura e o impacto clínico da adiposidade, em vez do IMC como único parâmetro, reflete uma visão mais holística e centrada no doente. A integração de novas guidelines internacionais, como as propostas pela EASO e as canadianas, reforça a necessidade de olhar para além da balança e focar na prevenção e no tratamento das complicações associadas – os 4 M (metabólicas, mecânicas, mentais e monetárias).
No campo terapêutico, assistimos a uma verdadeira revolução. Novos fármacos, especialmente os agonistas duplos e triplos de incretinas, têm demonstrado eficácia superior a 15% de perda de peso, com benefícios metabólicos evidentes. A investigação avança para formulações orais, combinações inovadoras e medicina de precisão, personalizando cada vez mais o tratamento.
Apesar destes progressos, persistem desafios significativos: o acesso limitado a terapêuticas farmacológicas, a falta de comparticipação, o estigma social e a necessidade de maior formação dos profissionais de saúde. A formação insuficiente de alguns profissionais de saúde e a visão ainda predominante da obesidade como “falha pessoal” perpetuam o atraso na abordagem eficaz da doença. A cirurgia bariátrica e as técnicas endoscópicas continuam a ser opções fundamentais, agora mais seguras e adaptadas a diferentes perfis de doentes.
Em Portugal, o impacto económico é alarmante: estima-se que o custo anual direto do excesso de peso e obesidade ultrapasse os 1,2 mil milhões de euros, o que representa cerca de 0,6% do PIB nacional. Este valor reflete só o peso dos cuidados de saúde e não os custos associados à falta de produtividade e absentismo laboral associados à doença. E estes dados são de 2018…
O futuro da abordagem da obesidade exige uma abordagem integrada, ética e fundamentada na melhor evidência científica, desde a prevenção ao tratamento, com equidade no acesso aos tratamentos e proporcionando a melhor qualidade e maior quantidade de vida para todas as pessoas afetadas pela doença. É nosso dever, enquanto sociedade científica, assumir a liderança deste processo de transformação: inspirar, inovar e cuidar, sempre com foco na pessoa que vive com obesidade. Os endocrinologistas devem assumir a liderança na capacitação e difusão de conhecimento em obesidade.
Boas leituras. Inspire-se e ajude a alavancar a mudança científica, social e nas políticas de saúde nesta área.