Ao fazer um apanhado da minha vida como Endocrinologista, Professor e Investigador, não posso deixar de afirmar o quanto estou reconhecido à Medicina pela vida cheia e feliz que pude viver nestes anos todos! Consegui atingir profissionalmente os meus objetivos mais importantes. Consegui compreender o que não era importante e libertei-me dos pesos que me dificultavam a caminhada.
Descobri que queria ser Médico por influência do meu Bisavô, Professor e Director do 1º Serviço de Pediatria, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Impressionou-me a ideia de salvar pessoas, de evitar que sofressem e que morressem.
Quando entrei para Medicina conheci professores que me entusiasmaram pela Investigação Científica. Integrei uma equipa de investigação e tive a felicidade de conhecer um outro universo que me permitiu ir mais longe. Foi nesse ambiente que conheci a Professora Conceição Magalhães, a primeira mulher Professora Catedrática e uma pessoa extraordinária. Uma Diretora que fez o seu percurso a apoiar e considerar os seus colaboradores, a estimulá-los a crescerem e a irem mais longe. Empreendedorismo e criatividade eram aspetos que eu queria para a minha carreira e só os encontrei com ela, que fazia investigação na Glândula Suprarrenal e levou-me a decidir ir para Endocrinologia e dedicar-me à investigação nessa área.
Foi essa Professora que conseguiu que eu fosse para Londres onde fiz o meu Doutoramento num modelo animal sobre o Desenvolvimento da Suprarrenal do nascimento à idade adulta. Publiquei um artigo que foi contra as ideias estabelecidas na época, mas que foi reconhecido e que até hoje já tem mais de 180 citações…
Após o Doutoramento mudei-me mais para o lado clínico da Endocrinologia e, ao mesmo tempo que encontrei a minha paixão pela pessoa humana, conheci também o lado menos bonito da profissão. Mas, como sou muito resiliente, nada conseguiu deitar-me abaixo e tenho um conjunto de memórias que me orgulham, de tão ricas que foram as experiências que tive oportunidade de viver. Uma das mais marcantes foi quando levei uma família a Boston para ser estudada a um Hipogonadismo Hipogonadotrófico de causa desconhecida. A descoberta dos mecanismos da Prokineticina e da Kisspeptina foi um dos grandes marcos do progresso do conhecimento acerca da puberdade e eu estava nessa equipa, com o meu “barbeiro que não fazia a barba” e a sua família, que nunca tinham saído de Portugal e que se prontificaram sem hesitar a ir até ao Novo Mundo para ajudar ao progresso da Medicina. Assim são os Portugueses!
Colaborei com as Universidades de Londres, Bologna, Grenoble, New York Birmingham, Los Angeles, Atenas, Ankara e Lausanne e tenho pena que o país onde encontrei maiores dificuldades em estabelecer colaborações foi Portugal! Apesar de ter feito conferências no ENDO e no ECE, a primeira vez que fiz uma Conferência na minha Faculdade de Medicina do Porto foi em 2024.
Não posso deixar de reconhecer que houve Endocrinologistas que foram exceção nessa descrição de difícil relacionamento entre portugueses, nomeadamente o Dr. Jácome de Castro. Sinto uma grande gratidão pelo quanto acreditou em mim. Com ele consegui um entendimento único e fizemos coisas lindas na Direção da SPEDM e na ESE!
Falta-me nomear um outro homem que foi fundamental na minha carreira médica e científica, com o seu exemplo e o seu apoio, o Prof. Sobrinho Simões. Curiosamente, sendo eu um Endocrinologista da Suprarrenal e mais recentemente do Ovário também, foi com dois grandes especialistas da Tiroide que encontrei força e motivação! A vida é mesmo assim. Consegue-se encontrar o caminho certo mesmo quando se está a andar com alguém que tem percursos diferentes. Dá que pensar!
Aos jovens, gostaria de deixar esta mensagem: procurem ser verdadeiros, procurem ser bons na vossa profissão e como seres humanos. Não deixem que a competição ou a vaidade vos tolde a visão. Só interessa o que produz efeito e não as adulações e os triunfos baseados em dark moves! Para um médico, a coisa mais importante são os doentes e nunca se esqueçam que esses podem ser vossos pais, irmãos ou vossos filhos.