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Perfil - Luísa Barros

Perfil
Ed.
Julho 2025

Escolhi Endocrinologia - Nutrição no Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SEDM), convictamente. Em 1993 foram publicados os resultados do DCCT e presenciei o júbilo do Dr. Almeida Ruas, fundador do SEDM e pioneiro da insulinoterapia intensiva. Comecei cedo a realizar a consulta de diabetologia pediátrica e da adolescência. Sentia-me insegura pelo que se pedia aos miúdos – muitas glicemias capilares diárias, caderno de registo tantas vezes enganador e, com base nisso, o ajuste da insulina. Andava com um saco de cabos para descarregar os glicómetros.

Em 2001 comecei estudar a monitorização contínua da glicose (MCG) e tudo começou a fazer mais sentido. Inseri microfibras do GlucoDay®, coloquei o CGMS® e mais tarde os Guardian® em tempo real. Quando surgiu o Ipro 2® (MCG retrospetiva de 6 dias), passámos a realizar MCG regularmente o que muito me(nos) ajudou a compreender as flutuações da glicose e a aumentar a adesão terapêutica. Ainda havia muita discrepância entre a glicose intersticial e a glicemia mas as tendências batiam certo.

Comecei a participar nos campos de férias (CF) para crianças e jovens com diabetes no ano 2000. Fui cofundadora, em 2004, da DTT-Diabéticos–Todo-o-Terreno - associação de crianças e jovens com diabetes da zona centro. Cheguei a tirar férias para acompanhar todas as atividades, mesmo as mais radicais em que me superava fisicamente para dar o exemplo.

Em 2002 comecei a dedicar-me à PSCI (perfusão subcutânea contínua de insulina), coloquei dispositivos em crianças, adolescentes e adultos.

Contribuí para implementar a contagem de hidratos de carbono (CHC) no SEDM. Que eu saiba, foi num CF em 2003, que se ensaiou a insulinoterapia funcional (IF) pela primeira vez em Portugal. A adesão dos jovens foi excelente, o tratamento com PSCI melhorou muito e passámos a ser mais permissivos, oferecendo melhor qualidade de vida. Para as pessoas com DM1 (PcDM1) com múltiplas administrações de insulina desenvolvi, com a Menarini, um disco com 2 círculos em papel, sobrepostos que, ao rodar independentemente, permitia determinar as unidades de insulina prandial e de correção.

A MCG revolucionou o tratamento da DM1 quando o sistema flash passou a ser comparticipado, em 2018. Mas antes, em 2014, coloquei o primeiro destes sensores em Portugal, numa menina de 15 anos e a duas dezenas de jovens no CF de 2016.

 

Figura 1 – criança de 12 anos, em tratamento com bomba de insulina AC Spirit® e MCG com Guardian  Real-Time®  (foto de 2006, arquivo fotográfico de SEDM, ULS Coimbra)

 

No ano 2020, no início da pandemia, contribuí para a operacionalização, no SEDM, das plataformas que nos permitiram continuar a seguir as PcDM à distância. Também nesse ano, fomos pioneiros no processo de colocação e seguimento, maioritariamente não presencial, de dispositivos integrados de PSCI com suspensão preditiva nas gestantes com DM1.

Sou a responsável pelas consultas de transição em diabetes desde 2009 e de DM e PSCI adultos desde 2017. Coordeno o Centro de Tratamento (CT) da ULS de Coimbra desde 2020. Sob a direção da Prof.ª Doutora Leonor Gomes, lidero uma equipa multidisciplinar que trabalha com muita dedicação. Somos um dos maiores CT do país e temos hoje em tratamento, no pólo adultos, cerca de 420 PcDM1 e mais de 6 centenas em toda a ULS de Coimbra.

Foi com emoção que colocamos e vimos os ótimos resultados dos primeiros sistemas automáticos de administração (SAAI) em 2023. Atualmente trabalhamos para colocar estes sistemas a um ritmo acelerado, mantendo a qualidade. Espero ainda trabalhar na ULS de Coimbra quando forem disponibilizados os SAAI fechados.

A Endocrinologia para além da diabetes continuou sempre a fazer parte da minha vida profissional no hospital e no exterior. Continuo apaixonada pela especialidade que escolhi embora seja desgastante.