Há limites para o exercício fisico?
David Veríssimo, Hospital das Forças Armadas, Lisboa
NÃO!
A ideia de que o exercício físico atinge um ponto de saturação universal, a partir do qual deixa de ser benéfico, não encontra suporte na literatura recente. A evidência científica recente defende que o organismo possui uma notável plasticidade adaptativa, mesmo perante volumes elevados de exercício.
O músculo esquelético ativo é reconhecido como um órgão endócrino, produtor de exercinas — incluindo miocinas, adipocinas, hepatocinas e cardiocinas — capazes de modular a inflamação, o metabolismo da glicose e a função cardiovascular, sem que se identifique um “teto” fisiológico uniforme.
Um exemplo paradigmático é a irisina, miocina que induz o browning do tecido adiposo branco, promovendo a formação de adipócitos bege, aumentando a termogénese e o gasto energético, além de melhorar a sensibilidade à insulina, efeito particularmente relevante em indivíduos com risco metabólico.
O exercício influencia também o eixo gonadal e somatotrófico. Treinos de resistência e de força induzem aumentos transitórios de testosterona, hormona de crescimento e IGF-1, com impacto positivo na massa muscular e na densidade mineral óssea. A prática regular de exercício está associada a maior integridade esquelética e menor risco de fratura, mediado não só pela carga mecânica, mas também pelas respostas hormonais anabólicas.
Finalmente, meta-análises robustas confirmam benefícios proporcionais: volumes crescentes de atividade física reduziram complicações micro e macrovasculares sem identificação de um limiar superior.
Assim, não existem limites universais para o exercício físico. Existem fronteiras individuais, determinadas pela idade, genética, capacidade de recuperação e contexto clínico. A fisiologia endócrina demonstra de forma consistente que quanto maior o estímulo, maior a adaptação e o ganho biológico.

Ricardo Fonseca, Coordenador da Unidade de Endocrinologia do Hospital Fernando Fonseca, ULS Amadora-Sintra
SIM!
A atividade física está associada a múltiplos benefícios na saúde, nomeadamente na prevenção de patologias crónicas, como a Diabetes tipo 2 ou Obesidade, sendo essencial no seu tratamento.
Contudo, o excesso de exercício também pode trazer riscos.
É reconhecido como uma das principais causas de amenorreia hipotalâmica. O défice energético parece ser o fator fundamental, na fisiopatologia deste problema funcional, causando uma menor secreção de LH/FSH, aumento do cortisol sérico e um aumento de várias adipocitocinas, que também condicionam a supressão da GnRH. Um dos maiores riscos dessa condição, sobretudo quando coexiste com dieta demasiado restritiva e baixo peso, é a diminuição da densidade mineral óssea (perda de massa óssea ou menor pico de massa óssea, dependendo da idade). Pode levar inclusivamente a osteoporose ou um aumento do risco de fracturas.
Por outro lado, o excesso de exercício pode também tornar-se num comportamento aditivo. Nesse contexto, seja para melhorar a performance ou tolerabilidade ou por motivos de auto-imagem, existe uma utilização recreativa crescente de esteróides anabolizantes e de testosterona. Além de outros riscos bem documentados (como possibilidade de toxicidade hepática, renal, cardíaca, policitémia), podem causar vários distúrbios endócrinos, como ginecomastia, atrofia testicular e infertilidade. O hipogonadismo secundário ao uso abusivo destas terapêuticas tem duração variável, leva a sintomas de privação após a interrupção, causando dependência. Representa um grande desafio na sua gestão, por ausência de recomendações claras na sua abordagem e pela frequente manutenção desse comportamento pelos doentes, que muitas vezes o consideram erradamente inócuo e uma "simples reposição hormonal".
