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Tema de Capa - Aspetos atuais da prática clínica: Neuroendocrinologia - Ema Nobre

Tema de Capa
Ed.
Abril 2024

Aspetos atuais da prática clínica: Neuroendocrinologia

A neuroendocrinologia é uma área apaixonante da endocrinologia que aborda a patologia hipotálamo-hipofisária. Baseia-se na interação entre os Sistema Endócrino e o Sistema Nervoso Central, com foco nos distúrbios da região selar em particular da glândula hipofisária. Esta constitui uma glândula complexa, que produz hormonas integrando sinais reguladores do hipotálamo e das hormonas periféricas em circulação, que regulam funções vitais do organismo.

A história da neuroendocrinologia remonta ao antigo Egipto, cerca de 1365 BC, onde a imagem do Farao Akhenaton, mostra sinais que são interpretados como Acromegália

Algumas passagens bíblicas parecem fazer referência a patologia hipofisária; David teria matado Golias pela diminuição da visão, consequência de uma “acromegalia”.

Galeno, proeminente médico e filosofo Romeno, de origem Grega, foi considerado um dos mais proeminentes médicos do seu tempo, era um anatomista e observador minucioso, tendo sido o primeiro a descrever a hipófise.

Em 1838 Martin Ratkhe, médico polaco de Gdansk, dedicado à anatomia e embriologia  descreveu o desenvolvimento embrionário da glândula hipofisária.

Em 1886 Pierre Marie publicou a descrição de excesso de GH e propôs o termo de “Acromegália”. Em 1912, Harvey Cushing descreveu a Doença de Cushing

É, no entanto, Geoffrey Wingfield Harris (1913–1971), fisiologista britânico que é considerado o “pai” da neuroendocrinologia, por ter demonstrado que a hipófise anterior é regulada pelo hipotálamo via sistema porta-hipofisário.

A patologia da região selar é variada, constituindo os adenomas hipofisários a patologia mais frequente desta região anatómica. A apresentação clínica é variável, podendo resultar da compressão de estruturas próximas ao tumor, da interferência com o normal funcionamento da glândula hipofisária ou de hipersecreção hormonal, originando, nestes casos, síndromes clínicas com fenótipos especificos  que refletem, na maioria dos casos, a hormona que se encontra em excesso, como nos casos da acromegália ou da Doença de Cushing.

O diagnóstico tardio dos tumores hipofisários pode resultar em complicações irreversíveis, como alterações visuais, alterações da aparência física e consequências metabólicas, conferindo morbilidade com grande impacto na qualidade de vida dos doentes tanto a nível físico como psicológico, pelo que o seu diagnóstico precoce é fundamental.

O manejo dos tumores da região selar requer uma abordagem multidisciplinar que inclui, para além da endocrinologia, a neurocirurgia, a radioterapia, neuroftalmologia e neurorradiologia, para referir apenas as mais relevantes.

O Grupo de Estudos da Hipófise, da Sociedade Portuguesa de Diabetes e Metabolismo foi criado em 1998. É um grupo multidisciplinar que inclui especialistas das várias áreas já referidas, essenciais para a abordagem destes doentes, permitindo uma compreensão mais abrangente destas patologias. Os médicos que integram o Grupo de Estudos reúnem periodicamente. Estes encontros permitem debater casos clínicos integrando as várias áreas de atuação. Constituem também uma oportunidade para rever abordagens terapêuticas, aprofundar conhecimentos e estabelecer protolocos de atuação, com o objetivo de otimizar o manejo dos doentes com patologia neuroendócrina.

A neuroendocrinologia continua a ser uma subespecialidade desafiante. Os avanços da biologia molecular, genética, técnicas de imagem e farmacologia, têm permitido uma melhor compreensão da patogénese e diagnóstico da patologia hipofisária com desenvolvimento de terapêuticas mais eficazes e abordagens terapêuticas mais diferenciadas e personalizadas, com melhores resultados clínicos nestes doentes, por vezes, tão desafiantes e complexos.