Newsletter da SPEDM

Tema de Capa - Nutrição e Endocrinologia – Perspectiva Histórica - Clotilde Limbert

Tema de Capa
Ed.
Janeiro 2024

Nutrição e Endocrinologia – Perspectiva Histórica

A endocrinologia é muito recente como especialidade médica autónoma. A área de estudo endocrinológico remonta pelo menos ao segundo quartel do séc XIX e o tema nutrição não é muito corrente em trabalhos até à data. Existem alguns estudos sobre alimentos e alimentação, carência alimentar e nutrientes - sobretudo no início do séc XX.

Alguns factores permitiram o desenvolvimento acelerado da endocrinologia entre as décadas de 1950 e 1980 como a abertura de serviços hospitalares e cursos especializados, o emergir dum periodismo médico especializado e a criação da sociedade portuguesa de endocrinologia em 1949. Na transição dos anos 40 - 50 criaram-se algumas consultas de endocrinologia, que com a evolução se tornaram unidades e depois serviços de endocrinologia nos principais hospitais do País. Outro factor que terá contribuído para estimular o interesse dos estudantes de medicina para esta especialidade e consequentemente na formação académica foram os cursos de endocrinologia organizados ora pelas faculdades de medicina como parte integrante dos curricula, ora por iniciativa de alguns hospitais ou da sociedade portuguesa de endocrinologia.

A primeira referência a uma consulta de endocrinologia num hospital português é feita nos Hospitais Civis de Lisboa. A institucionalização da endocrinologia nos H. Civis de Lisboa aconteceu com a ordem de serviço nº 3214 de 27 de Novembro de 1946. No entanto, esta consulta no H.C. Cabral não chegou a arrancar na data prevista. Em 1948, no Porto, lançou-se o primeiro número da Acta Endocrinológica e Ginecologia hispano-lusitana por iniciativa conjunta de Mário Cardia, ginecologista portuense e de José Cañadell, endocrinologista barcelonense. No mesmo ano, surgiu em Lisboa uma publicação Boletim de Endocrinologia e Clínica dos Hospitais Civis de Lisboa fundada pelo Prof. Iriarte Peixoto. Em 1949, seguiu-se a Revista Luso-Espanhola de Endocrinologia e Nutrição que teve como director Dr Eurico Paes. Em 1951, uma nova publicação de endocrinologia, a Acta Endocrinológica Ibérica dirigida por duas sumidades, Gregorio Marãnon e Celestino da Costa, passando a ser o órgão oficial da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e da sua congénere espanhola. É justo e oportuno salientar neste período clínico a grande influência que Gregorio Marãnon teve na formação de endocrinologistas portugueses. No serviço de patologia médica do Hospital Principal de Madrid regia a cátedra de endocrinologia da faculdade de medicina. Aí, médicos portugueses como Iriarte Peixoto, Eurico Paes, Ignácio Salcedo, Pinheiro Hargreaves, Mário Fernandes e Luiz Botelho foram seus discípulos e fizeram estágios clínicos, assistindo às lições de cátedra, às consultas, às visitas hospitalares e às conferências semanais. Esta publicação foi renomeada em 1954 como Revista Ibérica de Endocrinologia tendo continuidade até aos anos 70.

Seguiu-se o reconhecimento da especialidade de endocrinologia e nutrição pela Ordem dos Médicos em 1956, o que conferia idoneidade a determinados serviços hospitalares e estabeleceram-se normas para habilitação ao título de especialista. A reviravolta política do 25 de Abril de 1974 acarretou alterações na organização do ensino médico pelas reformas introduzidas no ensino superior a partir de 1977.

O Dr Emílio Peres desde muito cedo mostra a sua paixão pela endocrinologia e nutrição ao realizar em 1955 a sua primeira investigação intitulada Acção hipoglicemiante da vitamina E. A actividade desenvolvida pelo Dr Emílio Peres no capítulo da nutrição clínica disfruta de um grande e merecido prestígio. Entre 1974 e 1975 participou activamente em duas comissões nacionais, uma composta por representantes das três faculdades de medicina e dos hospitais centrais, resultando na criação de duas escolas médicas, uma no Porto (Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar ) e outra em Lisboa formada pelos representantes das faculdades de medicina sob a tutela do Director – Geral do Ensino.  Foram criadas escolas superiores públicas de saúde, como a faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Em 1976, integra o grupo de trabalho da comissão instaladora do Curso de Nutricionismo da Universidade do Porto e participa na formação dos curricula, na criação material e logística do curso e na contratação dos primeiros docentes. Nesse mesmo ano, dá a primeira aula do 2º ano do curso de nutrição da disciplina Alimentação racional. Tem vários livros publicados sobre alimentação e nutrição. Considerado o Pai da nutrição em Portugal.

Não existe formação em nutrição clínica durante o internato de endocrinologia. O programa de formação na área de especialização de endocrinologia / nutrição foi devidamente oficializado através da Portaria do Ministério da Saúde, Portaria nº 1 / 2014, D.R. nº1, série 1 de 2014-01-02. Entre os anos de 2015 e 2016 a SPEDM, juntamente com a SPCNA organizou cursos de nutrição para internos de endocrinologia e apresentados por nutricionistas. Em 2018, o colégio de especialidade de Endocrinologia e Nutrição propôs à Ordem dos Médicos uma formação específica na área de nutrição clínica.

Em 2019, a SPEDM cria o grupo de estudos de nutrição clínica com o objectivo de colmatar a inexistência de formação na área de nutrição. O GENC cria uma parceria com a SEEN para o intercâmbio de formação na área de nutrição clínica. Em 2020, durante o congresso nacional da SPEDM em Coimbra iniciou-se o 1º curso de formação em nutrição clínica, com a participação de endocrinologistas espanhóis. Desde 2021, a SEEN tem colaborado na formação de internos de endocrinologia, permitindo a deslocação de internos do 3º ano ao curso de nutrição clínica (NUTRISEEN) anual.