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Tema de Capa - O osso como órgão metabólico - Ana Paula Barbosa

Tema de Capa
Ed.
Julho 2023

O osso como órgão endócrino: a visão do endocrinologista

Longe vai o tempo em que se presumia que a existência do osso tinha como única função a manutenção da postura erecta. Quando ainda estudante de Medicina, a temática do osso era então leccionada no âmbito da Ortopedia. Actualmente, são várias as especialidades que a abordam e um endocrinologista que se preze em tratar bem os seus doentes terá forçosamente de estudar o osso. E porquê?

Porque além da manutenção da função estrutural e do desempenho locomotor, a função do osso comporta outras dimensões, tais como a hematopoiética e a regulação do metabolismo fosfocálcico, chegando ao ponto até, imagine-se, de ser um órgão endócrino. Sim, no seio do tecido ósseo produzem-se hormonas que atuam na homeostase corporal global, e ainda, outras hormonas e factores de tipo hormonal exercem acções sobre o tecido ósseo.

A PTH, a principal responsável pela homeostase dos níveis séricos de cálcio, é uma hormona ainda cheia de mistérios; tanto a conhecemos como exercendo acção catabólica sobre o osso, como a temos como a primeira terapêutica anabólica da fragilidade óssea.

O FGF-23 é sintetizado por osteoblastos e osteócitos, sob estimulação da 1,25-OH-Vitamina D e do fósforo. É responsável pela homeostase dos níveis séricos de fosfato, sendo o principal factor fosfatúrico renal e também coordenador da mineralização óssea.

A Esclerostina, segregada por osteócitos maduros e precursores osteoblásticos em resposta à ausência de estimulação mecânica, é um inibidor da formação óssea. A síntese de anticorpos monoclonais a ela dirigidos, conduziram ao aparecimento da arma terapêutica mais recente da fragilidade óssea.

 A Osteocalcina é sintetizada pelos osteoblastos, sob a regulação da 1,25-OH-Vitamina D e da via Runx2. A sua acção principal exerce-se na orientação dos cristais de hidroxiapatite. Contudo, tem sido associada a várias acções hormonais nomeadamente a regulação da síntese de insulina e de testosterona, da massa muscular, do desenvolvimento cerebral e ainda da ansiedade e da cognição.

O sistema hormonal da Vitamina D tem como principal função óssea controlar a remodelação; a 1,25-OH-vitamina D sintetizada no rim, induz a expressão de genes nos osteoblastos que regulam a reabsorção osteoclástica e a consequente libertação de cálcio e fósforo para o sangue.

Muitas outras hormonas e factores de tipo hormonal com acção sobre o osso estão ainda em investigação, entre elas a interleucina 6, a adiponectina e a resistina.

Ainda, existe um eixo intestino-osso, em que actuam as incretinas. Há receptores para o GIP nos osteoblastos e nos osteoclastos, favorecendo a formação óssea, e também receptores para o GLP-1 nos precursores dos osteoblastos. Pensa-se que as hormonas gastrointestinais poderão ter um papel na fisiopatologia da doença óssea da diabetes.

Se tudo o que até aqui expusemos não vos convence que o osso é um órgão endócrino, então que dizer mais?

Enquanto se aguarda que a ciência clarifique as funções endócrinas do osso, estejamos atentos às repercussões ósseas das nossas endocrinopatias, pois praticamente todas elas fragilizam o esqueleto originando mais morbilidade nos nossos doentes, nomeadamente as fracturas osteoporóticas.

Em Portugal em 2019, ocorreram 8 fracturas por hora.

Como endocrinologistas, temos obrigação de ajudar a reduzir estes números dramáticos duma outra pandemia, chamada Osteoporose.