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Tema de Capa - Obesidade: em busca de um consenso para a sua definição - Carolina Neves

Tema de Capa
Ed.
Julho 2025

A revolução no tratamento da obesidade tem sido o motor para a revisão de conceitos, da definição da doença e da integração da evidência científica com a prática clínica. Apesar de ser considerada uma doença crónica pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde 1948, as sociedades científicas tardaram em deixar de considerar a obesidade apenas um fator de risco.  Ainda hoje, a aceitação e implementação na prática clínica desta premissa tem sido um campo de trabalho que encontra resistência no estigma associado à obesidade.

A própria definição da doença tem sido alvo de discussão na comunidade científica. Se previamente o índice de massa corporal (IMC) era utilizado para definir a obesidade, hoje reconhece-se que este indicador é insuficiente para traduzir a presença de adiposidade e o seu impacto na saúde. De acordo com a OMS, a obesidade é uma doença crónica em que a acumulação anormal ou em excesso de gordura provoca danos à saúde. Esta é também a definição adotada pelas guidelines canadianas de prática clínica da obesidade no adulto (“Adult Obesity Clinical Practice Guidelines”), orientações publicadas em 2020, que foram líderes e disruptoras na mudança da abordagem da obesidade a nível mundial. 

Em Julho de 2024, a “European Association for the Study of Obesity (EASO) publicou uma “framework” com uma nova proposta de diagnóstico, estadiamento e abordagem da obesidade, em que a obesidade é reconhecida como uma doença crónica recidivante e multifatorial, cujo diagnóstico requer dados que vão além do IMC: antropometria e componente clínico. O diagnóstico inclui o componente antropométrico que traduz a distribuição da adiposidade, sendo proposto o ratio perímetro da cintura-altura como um forte indicador de risco de doença cardiometabólica. A avaliação de impacto na condição médica, funcional e mental tem igual importância no diagnóstico clínico, sendo dado mais ênfase ao impacto clínico da adiposidade em que indivíduos com IMC 25-30Kg/m2 e complicações, que podem beneficiar de terapêutica farmacológica. A proposta da EASO alinha-se com as orientações canadianas (já adotadas por diversos países), em que o foco do tratamento da obesidade incide na melhoria e prevenção das complicações da doença de forma holística e não na perda de peso como resultado isolado. 

Mais recentemente, uma publicação na revista Lancet suscitou discussão entre as sociedades científicas e especialistas em todo o mundo. A designada “Lancet Comission” reconhece a heterogeneidade da doença e o IMC como medida insuficiente para o diagnóstico e propõe os novos conceitos de obesidade pré-clínica e obesidade clínica.  Define obesidade clínica como uma doença crónica e sistémica caracterizada por alterações da função de tecidos e órgãos devido ao excesso de adiposidade, que pode levar a lesões de órgão-alvo graves que causem complicações potencialmente fatais ou que comprometem a qualidade de vida. Contudo, a comissão propõe critérios específicos para o diagnóstico de obesidade clínica que correspondem a estádios avançados de complicações da doença, não contemplando isoladamente doenças como a diabetes tipo 2 e não fazendo menção às complicações mentais da obesidade. Por outro lado, a obesidade pré-clínica é apresentada como uma condição de excesso de adiposidade sem disfunção orgânica ou limitações nas atividades diárias, mas com risco aumentado de problemas futuros. Apesar deste conceito pressupor um maior risco de obesidade clínica, os autores propõem que este grupo tenha uma abordagem de monitorização e aconselhamento para perda de peso, reservando intervenções ativas para perda ponderal apenas naqueles com risco mais elevado. 

A nova definição da “Lancet Comission” foi publicamente contestada pela EASO que argumenta que esta categorização pode agravar o já existente atraso de diagnóstico e acesso a tratamento eficaz de pessoas em risco. Diversos especialistas manifestaram críticas ao documento, por considerarem um retrocesso mediante a evidência atual que fundamenta uma intervenção cada vez mais precoce e uma abordagem centrada no doente. 

É necessário reconhecer que, sendo uma doença de elevada e crescente prevalência, são necessários critérios para categorizar os doentes que mais beneficiarão de tratamento e de que tipo de terapêutica. Impõe-se a necessidade de mais investigação para sustentar uma medicina de precisão na obesidade. Tal já começa a ser vislumbrado perante os resultados de estudos dos agonistas incretínicos em populações específicas de pessoas com obesidade e diferentes complicações.