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Tema de Capa - Reflexões e contexto histórico - Isabel Paiva

Tema de Capa
Ed.
Abril 2024

Reflexões e contexto histórico

A patologia tumoral hipofisária tem sido progressivamente mais reconhecida e identificada. Historicamente, foi dominada pelo reconhecimento das dismorfias de aspeto grosseiro e agressivo da acromegalia.

De seres de exposição em feiras e circos, foi-se passando progressivamente – à medida que os métodos laboratoriais e imagiológicos se foram aperfeiçoando e “democratizando” – para a identificação de uma doença crónica e evolutiva, curável ou controlável por tratamentos cirúrgicos e médicos.

O diagnóstico foi sendo feito mais cedo, muitas vezes suspeitado a partir das complicações – diabetes, bócio, amenorreias, alterações visuais, osteoarticulares, dentárias, mandibulares, do sono...

A rapidez da evolução da imagiologia permitiu que em 40 anos, na prática clínica, se tenha passado da pneumoencefalografia gasosa e angiografia cerebral (procurando a evidência de massa suprasselar) para a RM de alta definição (procurando invasões mínimas peri-selares).

Simultaneamente, os doseamentos hormonais tornaram-se geralmente acessíveis, com um grau de especificidade e fiabilidade que levam, muitas vezes, a reagir com automatismo aos seus valores, …. e sem as dúvidas iniciais:

  • quanto à GH - em que unidades é expressa (ng/mL? mUI/L?); qual o método laboratorial? qual o valor da normalidade correspondente (<5 ng/mL? 4? 2mUI/L?)?
  • quanto à SmC/IGF1 – em que unidades está expressa (U/mL ? ng/mL?)? qual a metodologia laboratorial utilizada? quais os valores da normalidade (< 2,2 ng/mL? ou que intervalo? em função da idade e sexo?)?
  • quanto a ambas - em que condições foram colhidas, transportadas e processadas?

Progressivamente, as complexidades e perplexidades foram-se alterando, sobretudo à medida que os fármacos dirigidos foram aparecendo e se tornaram disponíveis: que repercussões gerais esperar? durante quanto tempo será segura a sua utilização? será a sua eficácia progressiva?
A procura de atingir a normalização dos valores hormonais, intensificando tratamentos, chocou com a objetivação frequente de valores discrepantes entre as duas hormonas.

O que valorizar prioritariamente? A GH? – sabe-se o que é, onde é produzida, como se comporta nas diferentes fases da vida e em reposta a que estímulos, e também a sua correlação com a mortalidade - ou a IGF1? – o valor é mais estável, … mas resulta sobretudo da sua síntese hepática …. e a produção nos restantes tecidos, será influenciada do mesmo modo?

Como interpretar/valorizar um valor de GH (randomizado) abaixo da unidade, associado ao da IGF1 acima dos limites da normalidade (num doente em tratamento, com algumas dismorfias sequelares frustes e sem queixas específicas)? Daremos prioridade à clínica, baseada na observação e perceção médica? Ao valor de GH (as interferências mais comuns induzem aumento…)? ou à IGF1 (haverá fatores internos ou extrínsecos que alterem a sua produção? … os que se conhecem justificam sobretudo redução…)?

A evolução das metodologias neurocirúrgicas foi acompanhando a dos métodos de diagnóstico, sendo reduzida drasticamente a morbilidade e aumentada significativamente a eficácia, graças aos métodos de neuronavegação e às técnicas endoscópicas. Mantém-se como 1ª abordagem, quer com perspetiva curativa, quer de citorredução.

Também a radioterapia, inicialmente muito pouco eficaz e fonte de múltiplas complicações, fez uma significativa evolução, particularmente com a “radiocirurgia” (utilizando feixes de radiação gama ou aceleradores lineares). Conseguindo ações com precisões submilimétricas, com muito menor irradiação das estruturas envolventes, permite atingir resíduos inacessíveis à cirurgia, levando ao seu reposicionamento nas opções terapêuticas.

Resumindo, o tratamento da acromegalia é agora bem mais fácil, seguro e eficaz - beneficiando de várias formas de intervenção, quer no adenoma quer nas ações periféricas da GH - tornando-a curável em muitos casos, e tratável em todos, e tendo deixado de ter os impactos pessoais e sociais de antigamente. Já os outros tumores hipofisários, nomeadamente os produtores de ACTH e os craneofaringeomas - devido à menor incidência? ou à sua menor indolência? - continuam a aguardar o desenvolvimento de fármacos específicos, que possam ajudar ao seu controlo mais eficaz.