Newsletter da SPEDM

Tema de Capa - Sinergias em Endocrinologia: da Investigação à Clínica - Maria Lopes Pereira & Joana Almeida Palha

Tema de Capa
Ed.
Abril 2025

É necessário conhecer a fisiologia normal e a patologia relacionadas com a função do iodo, para se poder assegurar que está disponível em todos as etapas da vida. Tal requer a colaboração de equipas multidisciplinares, que englobem médicos (endocrinologistas, neonatologistas, obstetras, saúde pública), enfermeiros, farmacêuticos, estatísticos, epidemiologistas e investigadores das ciências básicas. Em 2009-2011, a equipa liderada pela Professora Joana Palha, constatou que a população de mulheres portuguesas em idade fértil do Minho apresentava indicadores de insuficiência de iodo.

Em 2010, as observações da insuficiência em iodo foram corroboradas por um estudo nacional, liderado pela equipa do Professor Limbert. Estes estudos contribuíram para que a Direção geral de Saúde emitisse, em 2013, a recomendação de suplementação com iodo nas mulheres em preconceção, grávidas e em aleitamento; e a Direção Geral de Educação, no mesmo ano, recomendasse uso de sal iodado nas cantinas escolares.

Passados 10 anos sobre a recomendação, constatámos que, num estudo efetuado em mulheres recrutadas de USF da região de Braga, apesar das mulheres referirem a toma de suplementos com iodo, tal não estar a corrigir os níveis de iodúria desejáveis na gravidez, o que se verifica igualmente noutras regiões do país. Tal pode dever-se a uma efetiva não conformidade com a toma, à data de início da suplementação não ser suficiente para a correção e/ou, mesmo que a toma seja a adequada, as medidas não bastarem para retificar os níveis de insuficiência das mulheres em idade fértil. Fomos, assim, em parceria com o Centro de Estudos e Avaliação em Saúde da Associação Nacional de Farmácias, estudar o perfil de vendas de fármacos ou suplementos alimentares contendo iodo dispensados nas farmácias desde 2010 e, através de vendas com prescrição, estudar o tempo de toma de uma coorte de oitenta mil grávidas.

Os resultados confirmam o aumento das vendas destes produtos, sobretudo após 2013, e apontam para que a suplementação termine no segundo trimestre da gravidez, não se cumprindo, assim, a recomendação da DGS. A forma mais custo-efetiva de assegurar a suficiência de iodo nas populações, tal como preconizado pela OMS, é a iodinação do sal. Em Portugal a iodinação do sal é voluntária, para o consumo geral, e obrigatória para as cantinas escolares. O estudo efetuado em parceria com a Jerónimo Martins, sobre as vendas de sal iodado, permitiu estimar que atualmente a ingestão de iodo através do sal atinge apenas os 17ug/pessoa/dia, muito aquém dos 150 ug diários desejáveis para a população em geral. Esta constatação pode apoiar as autoridades de saúde a considerar medidas adicionais, como a iodinação obrigatória do sal de consumo ou, como noutros países, a obrigatoriedade de utilização de sal iodado na indústria alimentar. Estas considerações constam do Programa Nacional para a Alimentação Saudável. As preocupações em assegurar o aporte suficiente de iodo aumentam se considerarmos que as fontes alimentares mais ricas são o marisco, o peixe e os laticínios. Acontece que nos últimos anos assiste-se à substituição de laticínios por bebidas vegetais cujo conteúdo natural em iodo é pobre, o que estamos neste momento a estudar. A evidência que tem sido coletada irá permitir às autoridades de saúde reverem normas e recomendações, e alertam para a necessidade do aumento de literacia da população geral, mas igualmente dos profissionais de saúde.

Apresentámos, na última reunião da SPEDM, um estudo numa amostra representativa da população portuguesa, que sugere que uma mensagem curta sobre os benefícios do iodo aumenta a intenção da compra de sal iodado, mas que tal não se efetiva na respetiva aquisição. Estamos, neste momento, a desenhar uma intervenção de literacia junto dos profissionais de saúde das farmácias, e através destes, junto da população de mulheres em idade fértil e grávidas. Da investigação básica à clínica, trilhando caminhos diversos.