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Dia Mundial da Obesidade: Sociedades médicas apelam à disponibilização e comparticipação urgente de novos fármacos

4 mar. 2024

É urgente a disponibilização no mercado e respetiva comparticipação médica de novos fármacos para o tratamento da obesidade já disponíveis noutros países, nomeadamente para as classes sociais mais desfavorecidas, que são as mais afetadas por esta patologia.

O alerta é da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) e da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), que apelam à premência de colocar a obesidade e o seu tratamento no centro da agenda das políticas de saúde em Portugal.

De forma a melhorar o acesso aos cuidados de saúde e a sensibilizar a população para este problema, torna-se ainda importante haver um reforço das consultas de obesidade no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Em dezembro de 2023, o Ministério da Saúde criou, pela primeira vez, um programa de resposta integrada à obesidade no SNS, reforçando a intervenção precoce e eficaz para reduzir o impacto negativo do excesso de peso na saúde da população. De acordo com os últimos dados oficiais, o excesso de peso, que inclui a pré-obesidade e a obesidade, atinge 67,6% da população adulta portuguesa.

 

“A obesidade é uma doença crónica e sabemos que poderá continuar a aumentar em Portugal caso não se tome uma posição urgente e concreta. O reforço para as ações de prevenção e tratamento da obesidade no SNS, anunciado em dezembro do ano passado, é, sem dúvida, um primeiro passo, mas ainda há muito a fazer, nomeadamente, a introdução de novos fármacos que já existem noutros países e a comparticipação dos fármacos para a obesidade, nomeadamente dos já existentes no mercado. Precisamos destes novos medicamentos, bem como de reforçar as consultas de obesidade. Só assim conseguiremos atuar na prevenção das comorbilidades, evitando o efeito da obesidade na progressão para doenças como a diabetes, a hipertensão, a apneia do sono, as doenças cardiovasculares e as doenças oncológicas, e, assim, garantir a qualidade de vida, o bem-estar e reduzir a mortalidade do maior número de pessoas possível”, sublinha Paula Freitas, presidente da SPDEM.

“Apesar de, no papel, a obesidade ser reconhecida como doença em Portugal, alguns profissionais e autoridades de saúde nacionais, ainda não atuam como tal. Portugal é, muitas vezes, citado pelo seu pioneirismo no reconhecimento oficial desta doença. Contudo deveria ser mais coerente com essa atitude e não continuar a alimentar a iniquidade existente no acesso a um dos pilares do tratamento da obesidade; quem tem maior status socioeconómico pode aceder aos fármacos antiobesidade, quem tem menores recursos não. E é, precisamente, este último grupo da população que apresenta uma prevalência de obesidade mais elevada. As consequências de não tratarmos, de forma eficaz, esta doença serão os elevados custos sociais e económicos que serão suportados por todos nós”, refere, por seu turno, José Silva Nunes, presidente da SPEO.

 

2024 marca os 20 anos desde que a obesidade foi considerada como uma doença pela Direção Geral de Saúde. Apesar de ser considerada um real problema de saúde pública, as autoridades ainda não estão alerta, nem capacitaram o SNS para dar as respostas adequadas.

De acordo com a Federação Mundial da Obesidade, cerca de 39% dos portugueses adultos serão obesos até 2035. A nível global, a obesidade afeta 1,1 mil milhões de pessoas, cerca de 14% da população mundial. 

A alimentação saudável e a atividade física são fundamentais para ajudar a manter um peso equilibrado, mas não são o tratamento da obesidade que é uma doença que necessita de tratamento adequado, tal como todas as outras doenças.

Também o acompanhamento médico é essencial para a promoção de um tratamento eficaz da obesidade, através de intervenções específicas que promovam a perda de peso e previnam o seu reaparecimento a longo prazo.

 


Sobre a obesidade:

A obesidade é uma doença crónica e recidivante, caracterizada por um excesso de tecido adiposo, com efeitos negativos na saúde, aumentando o risco de complicações clínicas a longo-prazo e reduzindo a esperança média de vida em até 14 anos. Está na origem de doenças como a diabetes tipo 2 (fração atribuível à obesidade: 79,4%), doença cardíaca isquémica (fração atribuível à obesidade: 35,8%), acidente vascular cerebral isquémico e hemorrágico (fração atribuível à obesidade: 42,8% e 62,9%, respetivamente).

A obesidade (IMC-índice de massa corporal superior a 30 Kg/m2) é uma doença complexa e multifatorial, caracterizada por uma desregulação do balanço energético, tipicamente causada por um padrão alimentar em que o aporte calórico é superior às calorias despendidas, tendo o cérebro um papel central neste processo.

Atualmente, tem uma prevalência de 28,7% entre os portugueses com idades entre os 25 e os 74 anos. Conjugando a prevalência da obesidade com a pré-obesidade, a percentagem de população portuguesa afetada atinge os 67,6%.

Na idade pediátrica, a obesidade afeta cerca de 11,9% das crianças portuguesas e 29,7% têm excesso de peso (pré-obesidade ou obesidade). Um adolescente com obesidade tem cerca de 80% de probabilidade de ser um adulto com obesidade, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.

O relatório The Heavy Burden of Obesity – The Economics of Prevention da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) refere que em Portugal 10% da despesa total da saúde é utilizada para o tratamento de doenças relacionadas com excesso de peso e obesidade, superior à média dos países da OCDE (8,4%), valor que representa 3% do Produto Interno Bruto. Estima-se que, entre 2020 e 2050, o excesso ponderal e as doenças associadas, possam vir a contribuir para uma diminuição da esperança média de vida em cerca de 2,2 anos.

As projeções do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) para 2030 em Portugal, indicam que do total de óbitos projetados, a percentagem atribuível a pré-obesidade e obesidade será de 11,99% (IC95: 7,40-17,80), ultrapassando o tabagismo, cuja percentagem projetada de óbitos atribuível será de 11,07%.

Diversos estudos apontam que a obesidade afeta mais as classes sociais mais desfavorecidas e com níveis de escolaridade mais baixos. Em Portugal, a prevalência de obesidade é cerca do triplo nos indivíduos com menor nível educacional (38,5% nos indivíduos com 4 ou menos anos de escolaridade vs. 13,2% nos indivíduos com 12 ou mais anos de escolaridade).