SPEDM alerta para as dificuldades no acesso a terapêuticas e tecnologias inovadoras e importância da vigilância das complicações da diabetes

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Portugal vive a uma velocidade diferente do resto da Europa comunitária quanto ao acesso a terapêuticas inovadoras. Este é o principal alerta deixado pela Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) neste 14 de novembro, data em que se assinala o Dia Mundial da Diabetes. Este alerta é particularmente relevante porque diz respeito a uma doença que afeta 13.6% da população Portuguesa (dos quais 44% desconhece ter a doença) e porque estas terapêuticas podem melhorar o controlo da doença e consequentes ganhos relevantes em saúde e qualidade de vida dos doentes.

A acessibilidade na Diabetes coloca-se a quatro níveis: 1) acessibilidade a terapêuticas inovadoras; 2) acessibilidade a tecnologias inovadoras; 3) acessibilidade a cuidados médicos e programas de rastreio e vigilância de complicações; e 4) acessibilidade a programas de educação terapêutica.

 

O acesso a terapêuticas inovadoras é lento e tardio

Foram recentemente noticiados problemas de abastecimento e aquisição do semaglutido, que se estendeu recentemente ao dulaglutido, medicamentos que em Portugal estão comparticipados apenas para doentes com diabetes tipo 2. Todavia, este não é exemplo único de dificuldade no acesso à terapêutica, alerta a SPEDM. Um exemplo é o próprio semaglutido, cuja formulação oral está já disponível em vários países, mas que em Portugal é ainda uma miragem.

 

O acesso às tecnologias inovadoras é insuficiente

Portugal permanece como um dos países com menos utilização de bombas de insulina a nível europeu. Para melhorar a acessibilidade às bombas de insulina faz-se necessária a intervenção a três níveis: 1) aumentar a acessibilidade às bombas de insulina por parte das pessoas com diabetes tipo 1, inclusivamente os adultos; 2) aumentar a acessibilidade às bombas de insulina mais modernas; 3) diminuir o tempo de espera para o início de tratamento com bombas de insulina, em pessoas com diabetes tipo 1 com indicação para a sua utilização. Muitas vezes o tempo de espera é superior ao recomendável para aceder a esta tecnologia. Mesmo que adquiram a bomba pelos seus próprios meios, os consumíveis mensais têm um custo muito elevado e não são comparticipados. Por outro lado, o acesso lento e tardio a bombas mais modernas constitui uma oportunidade perdida na melhoria do controlo da diabetes de todos os doentes que delas tirariam benefício.

As bombas de insulina são essenciais ao tratamento da diabetes tipo 1, particularmente nas pessoas com hipoglicemias frequentes ou graves, mau controlo com tratamento convencional, variabilidade glicémica, adolescentes e crianças, mulheres grávidas com diabetes tipo 1, entre outros.

As pessoas com diabetes tipo 1 dependem totalmente da insulina, que deve ser administrada a todas as refeições, em função da refeição ingerida e do valor de glicemia antes da refeição, pelo que, geralmente, são necessárias 5 a 8 medições da glicemia capilar e administrações de insulina por dia. As bombas de insulina melhoram o controlo da diabetes, diminuem as hipoglicemias e a variabilidade glicémica e melhoram a qualidade de vida nas pessoas com diabetes tipo 1 e devem estar disponíveis a todos os doentes, que delas beneficiem.

Nos últimos anos, diversos dispositivos tecnológicos, sejam medidores da glicose intersticial ou dispositivos de perfusão subcutânea contínua de insulina, vulgarmente conhecidos por bombas, têm sido aprovados para utilização na diabetes. Os dispositivos de monitorização contínua da glicose intersticial são extremamente úteis em pessoas com diabetes tipo 1 e pessoas com diabetes tipo 2, que necessitem de várias administrações diárias de insulina. A sua utilização reduz, na maioria das situações, a necessidade de “picar o dedo” para avaliar a glicemia, melhora a qualidade de vida dos doentes e melhora o controlo da diabetes. O acesso a estes dispositivos, daqueles que deles beneficiem, é fundamental para o tratamento adequado da diabetes.

 

O acesso a programas de rastreio e vigilância das complicações é insuficiente

A diabetes é uma doença crónica que, com frequência, leva ao desenvolvimento de complicações, nomeadamente retinopatia, nefropatia, neuropatia e doenças cardiovasculares. De acordo com o Relatório Monitorização e Avaliação do Rastreio da Retinopatia Diabética em 2020, publicado pela Direção Geral da Saúde, apenas 26% das pessoas com diabetes tiveram acesso, nos cuidados de saúde primários, ao rastreio da retinopatia diabética, sendo que, destes, apenas 14% realizaram de facto o rastreio. A vigilância das pessoas com diabetes, tal como demais doenças, sofreu um impacto significativo com a pandemia por COVID-19, de que importa urgentemente recuperar. No ano de 2020, pelo impacto da pandemia, o número de pessoas que tiveram acesso ao rastreio da retinopatia reduziu em cerca de 47% e o número de pessoas que foram rastreadas reduziu em cerca de 55%. É fundamental promover o rastreio e vigilância da retinopatia e das outras complicações da diabetes, de modo a melhorar a morbi-mortalidade e qualidade de vida das pessoas com diabetes.

 

O acesso a programas de educação e capacitação dos doentes é fundamental para a prevenção e tratamento da diabetes

Paralelamente às intervenções na acessibilidade à terapêutica e às tecnologias inovadoras, a educação terapêutica e a capacitação das pessoas com diabetes são fundamentais para o controlo da doença e aumento da qualidade de vida. Poucas doenças haverá que tanto dependam do próprio doente no processo de prevenção, monitorização da doença e suas complicações, bem como na decisão terapêutica. Estas dimensões são particularmente relevantes nas pessoas com diabetes tipo 1 e carecem de um intenso e contínuo processo de educação e empoderamento terapêuticos, que compete a todos os profissionais de saúde, particularmente aos endocrinologistas para dotar esses doentes.